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Por que não se podem prever terremotos altamente destrutivos

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25 de Junho de 2026 às 13:09
6 min de leitura
Os terremotos de magnitude 7,5 e 7,2 que atingiram a Venezuela nesta quarta-feira (24) foram os mais fortes em mais de um século, desde o ano 1900, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Apesar do alto potencial destrutivo e do prejuízo para a vida humana, os cientistas não conseguem prever estes abalos sísmicos, porque ainda falta conhecimento sobre os padrões da natureza. "Nós não sabemos como [prever grandes terremotos], e não esperamos saber num futuro previsível. Os cientistas do USGS só podem calcular a probabilidade de que um terremoto significativo ocorra em uma área específica dentro de um determinado número de anos," explica o site do serviço americano, referência mundial no assunto. Prever um terremoto significaria, na prática, saber exatamente quando ele vai acontecer, a área que sentirá o maior choque e, ainda, qual será a magnitude. O problema é que não se sabe com clareza quais são os sinais que poderiam indicar as respostas para estas perguntas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 750 mil pessoas morreram entre 1998 e 2017 em decorrência de terremotos, mais da metade das vidas perdidas em desastres naturais globalmente. Teorias não comprovadas Existem várias teorias sobre fenômenos que poderiam preceder um abalo de alta magnitude numa localização geográfica. A lista dos apontados "precursores" inclui terremotos moderados ou terremotos pequenos em série, que poderiam sugerir que outro maior está por vir; o aumento de radônio, gás radioativo presente na natureza; e até mesmo o comportamento incomum de animais. Mas nenhuma destas opções tem comprovação científica, apesar de frequentemente serem citadas por leigos que, sobretudo na internet, se dizem capazes de prever terremotos. "Infelizmente, a maioria desses precursores ocorre com frequência sem ser seguida por um terremoto, de modo que não é possível fazer uma previsão real," diz o USGS. Já a previsão da magnitude de um terremoto – e, portanto, do seu potencial destrutivo – esbarra num obstáculo principal: os abalos pequenos e grandes começam de maneira parecida. A força do abalo só fica clara com pouquíssima antecedência, limitando a possibilidade de emitir alertas para a população. Nova aposta em inteligência artificial Uma das apostas dos estudiosos nos últimos anos, segundo a revista Nature, é o uso de inteligência artificial (IA) para identificar padrões que poderiam indicar a ocorrência futura de terremotos, com base em extensivas bases de dados já disponíveis. A dificuldade, explica a publicação, repousa, primeiro, no desconhecimento sobre quais fatores as máquinas devem analisar. Segundo, na ausência de informações completas para terremotos que aconteceram há duas ou três décadas, quando ainda não havia as mesmas tecnologias de captura de dados. Todos os dias, milhares de pequenos terremotos acontecem ao redor do planeta, e a maioria deles é fraco demais para ser sentido na superfície terrestre. Mesmo o Brasil, numa região de estabilidade tectônica, registra em média 20 sismos de magnitude maior que 3,0 na escala Richter por ano e dois com magnitude maior que 4,0, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB). A abundância de abalos facilita a vida dos pretensos previsores amadores de terremotos. Não é tão difícil acertar, por exemplo, que um tremor de baixa magnitude ocorrerá numa área de alta propensão dentro de um período de algumas semanas ou meses, pondera o USGS. Alertas de curto prazo Os serviços geológicos, por sua vez, têm três ferramentas que contribuem para mitigar o poder destrutivo de um terremoto. A primeira delas é a emissão de alertas depois que um abalo sísmico já começou. Assim, é possível alertar populações de que um tremor poderá – mesmo que em alguns segundos – atingir a sua localização, orientando-as a se proteger. O sistema identifica as chamadas ondas primárias de um terremoto, vibrações que viajam mais rápido, e avisa que deverão ocorrer ondas secundárias. O tempo que leva para as ondas primárias serem detectadas depende, entretanto, da distância entre o ponto de origem do abalo sísmico e os sismógrafos mais próximos. É necessário, então, transferir as informações por redes especializadas e, depois, processá-las, a fim de determinar que, de fato, se configuram as condições para um terremoto e que a sua intensidade é alta o suficiente para emitir um aviso à população. "Alarmes falsos podem gerar custos desnecessários com emergências e comprometer a credibilidade desses sistemas, o que, em última análise, afetará a forma como as pessoas reagirão a alarmes no futuro. Garantir que as previsões sejam o mais precisas possível, minimizando esses riscos, é um desafio enorme," explica a Nature. Estes sistemas de monitoramento e alerta são adotados por vários países, como México, Japão, Turquia e Itália. Numa das regiões mais vulneráveis do mundo, os japoneses têm hoje o sistema mais sofisticado, operando a nível nacional desde 2007, o que exige investimentos em tecnologias de detecção e aprimoramento contínuo. Os alertas são transmitidos, então, por sirenes, na televisão e no rádio e pelos celulares. Ainda assim, estabelecer o epicentro do terremoto e a sua magnitude permanecem desafios. Cálculos de probabilidades As outras duas ferramentas dos cientistas miram o médio e o longo prazo. Assim como é possível prever como estará o tempo nos próximos dias ou semanas, estimam-se alguns abalos sísmicos de menor intensidade, que poderão ocorrer em janelas de tempo fechadas, de acordo com circunstâncias já dadas. Mas o USGS explica que este recurso se aplica para abalos secundários, aqueles que vêm depois de um terremoto forte. A tendência é que os tremores subsequentes sigam o mesmo padrão. Além disso, os serviços geológicos calculam a probabilidade, em períodos extensos, de um terremoto acontecer numa localização e período específicos. A conta se baseia na média de eventos que já se registraram ao longo da história, assumindo que as taxas anuais de terremotos não mudam. Torna-se possível, assim, tomar medidas de prevenção de desastres para as regiões que tendem a ser mais afetadas ao redor do mundo. É o caso, sobretudo, do Círculo de Fogo do Pacífico, onde ocorrem 90% dos terremotos do planeta. Terremoto provocado por humanos no Brasil Em casos raros, os terremotos podem também ser induzidos pela atividade humana, explica ainda o SGB, em decorrência de explosões nucleares, introdução de água e gás sob pressão no subsolo, construção de barragens, mineração a céu aberto de grandes proporções ou extração de fluidos, como petróleo, do subsolo. Foi o que aconteceu na Hidroelétrica de Capivari-Cachoeira, perto de Curitiba, no Paraná, com atividade sísmica registrada entre 1971 e 1979, cada vez de menor intensidade. O maior tremor já registrado em solo brasileiro, segundo o SGB, ocorreu em 1955, com epicentro a 370 quilômetros de Cuiabá, no Mato Grosso. Em geral, estima-se que, no país, devam ocorrer tremores de magnitude maior que 7,0 uma vez a cada 500 anos, em comparação a três anos no Chile, por exemplo.
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