Adolescentes cujos pais se distraem mais com celulares são mais inseguros, indica estudo
Adolescentes cujos pais se distraem mais com celulares são mais inseguros, indica estudo Adobe Stock Uma pergunta feita por uma criança à mãe — “Mamãe, você ama mais o seu celular do que a mim?” — inspirou pesquisadores norte-americanos a investigar um fenômeno cada vez mais comum dentro das famílias: a disputa pela atenção dos pais entre os filhos e as telas. O resultado foi um estudo que encontrou uma associação consistente entre a percepção dos adolescentes de que seus cuidadores estão excessivamente focados em dispositivos eletrônicos e níveis mais elevados de apego inseguro, um padrão ligado a mais dificuldades emocionais, problemas de saúde mental e relações interpessoais menos saudáveis. A pesquisa avaliou 600 adolescentes de 12 a 17 anos nos Estados Unidos e concluiu que jovens que percebem maior distração dos pais por celulares, tablets e outros dispositivos tendem a relatar mais apego ansioso e evitativo em relação aos cuidadores. Os autores destacam que o estudo não prova que o uso de dispositivos cause insegurança no apego, mas sugere que a disponibilidade de atenção dos pais no contexto digital pode ser um fator relacional relevante para o desenvolvimento emocional dos adolescentes. Agora no g1 O que os pesquisadores investigaram O trabalho analisou três aspectos principais: como os adolescentes percebem os comportamentos dos cuidadores relacionados ao uso de dispositivos eletrônicos; como avaliam emocionalmente esses comportamentos; como essas percepções se relacionam com o vínculo de apego entre pais e filhos. A hipótese dos pesquisadores era que adolescentes que percebem menor disponibilidade de atenção dos cuidadores apresentariam níveis mais elevados de apego inseguro. Para testar essa hipótese, os autores validaram uma nova ferramenta chamada Escala de Interferência do Dispositivo no Apego (DAIS, na sigla em inglês), criada para medir a percepção dos adolescentes sobre o quanto o uso de dispositivos pelos cuidadores interfere na relação familiar. Celulares disputam a atenção dos pais Segundo o estudo, pesquisas anteriores já mostravam que a distração digital dos pais é um fenômeno frequente. Em 2020, 68% dos pais relataram sentir-se pelo menos ocasionalmente distraídos pelo celular enquanto estavam com os filhos. Já uma pesquisa do Pew Research Center realizada em 2024 mostrou que 46% dos adolescentes disseram que os pais ficam distraídos pelo celular ao menos algumas vezes durante conversas. Os autores afirmam que esses números indicam uma preocupação crescente: a atenção dos cuidadores é constantemente disputada por smartphones e outros dispositivos digitais. O que são “technoference” e “phubbing” O estudo se baseia em dois conceitos que vêm ganhando espaço na literatura científica. O primeiro é a technoference, termo usado para descrever a interferência da tecnologia nos relacionamentos interpessoais. Já o segundo é o phubbing, que caracteriza o ato de ignorar alguém para prestar atenção ao celular. Pesquisas anteriores já haviam associado esses comportamentos a: menor satisfação nos relacionamentos; pior qualidade das relações; aumento de conflitos. Outro conceito citado é o de “presença ausente”, situação em que uma pessoa está fisicamente presente, mas mentalmente desconectada por estar concentrada em um dispositivo eletrônico. Quando o celular interfere na relação entre pais e filhos Os pesquisadores destacam que apenas recentemente os estudos passaram a investigar os impactos da technoference e do phubbing nas relações familiares. Trabalhos anteriores já haviam encontrado associações entre distração tecnológica dos pais e: mais problemas comportamentais em crianças; menor bem-estar infantil; pior qualidade da relação familiar; sentimentos de negligência emocional relatados por adolescentes. Alguns autores chegaram a descrever o phubbing parental como uma “nova forma de negligência social durante as interações entre pais e filhos”. O que é apego inseguro A teoria do apego, desenvolvida pelo psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby, sustenta que crianças e adolescentes dependem da disponibilidade emocional dos cuidadores para desenvolver vínculos seguros. Ao longo da vida, essas experiências moldam expectativas sobre relacionamentos futuros. Quando os cuidadores respondem de forma consistente e sensível às necessidades dos filhos, tende a se desenvolver um apego seguro. Esse padrão está associado a maior bem-estar, melhores relações interpessoais e maior satisfação com a vida. Já o apego inseguro tem sido associado a diversos problemas, incluindo: depressão; ansiedade; transtorno de estresse pós-traumático; dificuldades na regulação emocional; baixa autoestima; problemas de confiança; isolamento social; comportamentos de risco. Como o estudo foi realizado A pesquisa recrutou 600 adolescentes norte-americanos entre 12 e 17 anos em agosto de 2025. A idade média dos participantes foi de 14 anos. Os jovens responderam a: um questionário demográfico; uma escala de apego; a nova Escala de Interferência do Dispositivo no Apego (DAIS). A DAIS avalia situações como: sentir-se ignorado quando o cuidador está usando um dispositivo; perceber que o cuidador passa tempo demais no celular; acreditar que o uso de dispositivos prejudica o relacionamento; sentir-se sem importância quando o cuidador não interrompe o uso do aparelho para dar atenção. O que os resultados mostraram As análises confirmaram que a escala DAIS mede um único fator relacionado à percepção de comportamentos centrados em dispositivos eletrônicos por parte dos cuidadores. Na etapa principal do estudo, os pesquisadores verificaram que escores mais elevados na escala estavam associados a maiores níveis de apego inseguro. Entre adolescentes que identificaram uma figura materna como cuidadora principal, níveis mais altos de distração por dispositivos estiveram associados tanto ao apego evitativo quanto ao apego ansioso. O mesmo padrão foi observado entre aqueles que identificaram uma figura paterna como cuidadora principal. Nesse grupo, maior uso de dispositivos pelos cuidadores também esteve relacionado a níveis mais elevados de apego evitativo e ansioso. Segundo os autores, os resultados indicam que adolescentes que percebem seus cuidadores como mais distraídos por dispositivos eletrônicos tendem a relatar maior insegurança nos vínculos afetivos. O que os pesquisadores concluem Os autores afirmam que os achados reforçam uma literatura crescente que relaciona distrações causadas por dispositivos eletrônicos à qualidade dos relacionamentos interpessoais. Eles destacam que, diferentemente de fatores tradicionais associados ao apego inseguro — como negligência, abuso, doenças ou rupturas familiares — os comportamentos relacionados ao uso de dispositivos estão sob controle voluntário dos cuidadores. Por isso, argumentam que interrupções breves, mas repetidas, na atenção parental podem adquirir relevância emocional para adolescentes, especialmente em uma época em que celulares e outras telas estão presentes de forma constante no cotidiano familiar. Limitações do estudo Apesar dos resultados, os autores fazem uma ressalva importante: a pesquisa identificou uma forte correlação, mas não demonstra que o uso do celular pelos pais seja a causa direta do apego inseguro. Uma das possibilidades levantadas pelos próprios pesquisadores é que adolescentes com estilos de apego inseguros possam perceber seus cuidadores como menos disponíveis, independentemente da frequência real de uso dos dispositivos. Por isso, novas pesquisas serão necessárias para esclarecer melhor a relação entre os dois fatores. Os próprios pesquisadores ressaltam que o trabalho possui limitações importantes. Por ser um estudo transversal e correlacional, não é possível determinar se a distração causada por dispositivos contribui para o apego inseguro ou se adolescentes com apego inseguro tendem a interpretar os comportamentos dos pais de forma mais negativa. Além disso, todas as informações foram obtidas por autorrelato dos adolescentes, o que pode influenciar os resultados. Os autores defendem que pesquisas futuras acompanhem famílias ao longo do tempo e utilizem diferentes métodos de observação para esclarecer melhor a relação entre uso de dispositivos pelos pais e desenvolvimento dos vínculos familiares.
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